Todos os dias, milhões de angolanos fazem pagamentos, transferem dinheiro, levantam numerário ou compram bens e serviços sem pensar na infra-estrutura que torna essas operações possíveis. É natural que assim seja.
Por: Eduardo Bettencourt / Administrador Executivo da EMIS
Quando um sistema de pagamentos funciona bem, vemos o resultado e raramente pensamos no que está por detrás dele. O sistema torna-se assim invisível.
Durante muito tempo, os pagamentos foram entendidos sobretudo como um serviço financeiro. Hoje, essa visão já não é suficiente. Numa economia cada vez mais digital, os pagamentos constituem uma infra-estrutura crítica. Ligam pessoas, empresas, bancos e Estado, permitem a circulação de valor e sustentam uma parte crescente da actividade económica.
Celebrar os 25 anos da EMIS é, naturalmente, olhar para o caminho percorrido. Mas é também reconhecer que entrámos num novo ciclo. Os desafios que justificaram a criação da empresa, em 2001, não são exactamente os mesmos que hoje temos pela frente.
A missão inicial de criar uma rede interbancária partilhada e massificar os pagamentos electrónicos evoluiu para uma responsabilidade mais ampla: garantir que o ecossistema de pagamentos angolano se mantém aberto, coeso, seguro e preparado para integrar novos participantes, tecnologias e formas de pagamento.
Angola realizou, nas últimas décadas, progressos significativos na modernização do seu sistema de pagamentos. Esse percurso foi possível graças à visão das autoridades, à orientação do regulador, ao investimento das instituições financeiras e à crescente adesão dos cidadãos e das empresas.
Em 2025, os sistemas operados pela EMIS processaram cerca de 3,4 mil milhões de transacções, num valor superior a 46 biliões de kwanzas. São números que demonstram a dimensão alcançada, mas dizem-nos também outra coisa: quanto mais a economia depende dos pagamentos electrónicos, maior é a responsabilidade de quem assegura o funcionamento da infra-estrutura que os suporta.
Quando alguém utiliza o MULTICAIXA Express, efectua uma transferência através do KWiK, levanta dinheiro, paga um serviço num caixa automático ou realiza uma compra num estabelecimento comercial, existe um conjunto de sistemas, instituições e tecnologias a trabalhar em simultâneo. O utilizador não precisa de conhecer essa complexidade. Precisa de confiar que a operação será simples, segura e concluída no momento em que dela necessita.
Ao olhar para estes 25 anos, há uma conclusão que me parece particularmente importante: a EMIS tornou-se maior do que as marcas e os serviços que opera. Tornou-se uma base de confiança partilhada por diferentes participantes do sistema financeiro angolano.
Essa invisibilidade é uma das características das infra-estruturas que funcionam bem. Raramente pensamos nelas quando estão disponíveis, mas percebemos imediatamente a sua importância quando falham. Quando os pagamentos param, não fica apenas uma operação por realizar. Uma compra não se concretiza, um serviço não é pago, uma empresa deixa de receber e uma parte da economia abranda.
Por isso, disponibilidade, segurança e resiliência não são apenas questões tecnológicas. São condições para o funcionamento da economia. A confiança demora anos a construir, mas pode perder-se rapidamente quando as pessoas não se sentem protegidas ou quando o sistema não responde.
É a partir desta realidade que devemos compreender o reposicionamento apresentado pela EMIS por ocasião dos seus 25 anos. A nova identidade visual é a expressão visível de uma evolução mais profunda. Não muda apenas a forma como a EMIS se apresenta. Torna mais claro o papel que a empresa assume no próximo ciclo de desenvolvimento do sistema de pagamentos angolano.
A EMIS é hoje um ponto de encontro entre diferentes participantes. Bancos, prestadores de serviços de pagamento, empresas tecnológicas, reguladores, instituições públicas, comerciantes e utilizadores, fazem parte de um ecossistema no qual cada participante tem responsabilidade, interesse e capacidade própria.
Nenhuma destas entidades conseguirá construir, isoladamente, o futuro dos pagamentos. Esse futuro dependerá da capacidade de nos sentarmos à mesma mesa, aproximarmos perspectivas, definirmos papéis com clareza e desenvolvermos soluções partilhadas que criem valor para todo o sistema.
Neste contexto, a neutralidade da EMIS não significa passividade. É a condição que permite reunir instituições que competem entre si sobre uma infra-estrutura em que todas precisam de confiar. Bancos, prestadores de serviços de pagamento e empresas tecnológicas devem competir através dos seus produtos, serviços, experiência e marcas. Mas essa concorrência precisa de assentar numa base comum, interoperável, transparente e segura.
A inovação que cria soluções isoladas e fragmenta o mercado não permite aproveitar todo o potencial do sistema. A inovação deve aumentar a interoperabilidade, simplificar a experiência dos utilizadores e permitir que novos participantes se integrem sem comprometer a segurança e a coesão do ecossistema.
Esta é uma das razões pelas quais adoptámos a assinatura “EMIS, pelo futuro dos pagamentos”. Não se trata de uma promessa abstracta, nem apenas de acompanhar as tendências tecnológicas internacionais. Trata-se de preparar uma infraestrutura capaz de responder às necessidades concretas de Angola.
Nos próximos anos, os pagamentos serão progressivamente digitais, instantâneos e integrados na actividade quotidiana das pessoas e das empresas. O comércio electrónico continuará a crescer. Mais empresas entrarão na economia digital. A inteligência artificial, os ecossistemas financeiros abertos, a autenticação digital e a integração económica africana criarão novas possibilidades, mas também novas responsabilidades.
A transformação digital oferece-nos uma enorme oportunidade e exige uma preparação permanente. Quanto maior for a dependência dos meios electrónicos, maior será a importância da disponibilidade, da segurança e da confiança. Por isso, inovar não é apenas lançar novos serviços. É antecipar necessidades, proteger os utilizadores, reforçar a capacidade dos sistemas e garantir que a infraestrutura não para.
A próxima etapa deste percurso não passará apenas pela disponibilização de mais meios de pagamento. Passará também pelo reforço da capacidade do sistema para integrar diferentes soluções, combinando inovação com segurança, concorrência com interoperabilidade e conveniência com confiança.
As experiências internacionais constituem referências importantes, mas devem ser adaptadas às características do mercado angolano, aos seus níveis de acesso tecnológico, às suas dinâmicas económicas e às necessidades concretas da população.
Uma solução pode ser tecnologicamente avançada e, ainda assim, mudar muito pouco a vida das pessoas. A tecnologia só cria valor quando simplifica, reduz barreiras e resolve problemas concretos.
É necessário compreender por que razão uma zungueira que recebe dezenas de pequenos pagamentos ao longo do dia, um taxista que circula entre municípios ou um pequeno comerciante que precisa de repor mercadoria escolheriam o dinheiro electrónico em vez do dinheiro físico.
As respostas não serão necessariamente iguais em todo o país. As dinâmicas económicas, os níveis de acesso, os fluxos de receita e as relações de confiança variam de uma província para outra e entre os centros urbanos e as comunidades mais afastadas.
Para estas pessoas, a inovação não começa na tecnologia. Começa na confiança de que o dinheiro chegou, está seguro e poderá ser utilizado quando for necessário.
O sistema de pagamentos deve ter capacidade para reconhecer essas diferenças e adaptar as soluções ao contexto angolano. Ser angolano e trabalhar por Angola significa precisamente isso: desenvolver tecnologia com conhecimento profundo do mercado e com a preocupação de fazer uma diferença real no dia-a-dia das pessoas.
Apesar dos progressos alcançados, existe ainda uma importante oportunidade para levar os benefícios dos serviços financeiros digitais a mais cidadãos, empresas e comunidades. A inclusão financeira não se resolve apenas com a abertura de contas. A massificação sustentável dos pagamentos electrónicos depende de as pessoas compreenderem a sua utilidade, confiarem nas instituições e encontrarem razões concretas para continuar a utilizar esses serviços.
Para avançarmos, precisamos de infraestruturas seguras, produtos adequados, comunicação clara, literacia financeira e mecanismos eficazes de prevenção da fraude. Este trabalho exige uma articulação permanente entre as autoridades, o regulador, as instituições financeiras, os prestadores de serviços de pagamento, as empresas tecnológicas e os demais participantes do ecossistema.
A confiança não é responsabilidade de uma única entidade. É uma responsabilidade partilhada por todos.
Foi esta reflexão que nos levou a definir um novo propósito para a EMIS: potenciar a economia e o dia-a-dia de todos, desenvolvendo, operando e garantindo um sistema de pagamentos aberto, coeso, conveniente e seguro.
Este propósito traduz-se em cinco compromissos: juntar os participantes e avançar em conjunto; servir todos por igual; garantir que o sistema não pára; preparar o futuro; e construir soluções angolanas, pensadas a partir das necessidades do nosso país.
Durante 25 anos, a EMIS ajudou a construir os caminhos por onde circula uma parte crescente da economia angolana. O nosso próximo desafio é garantir que esses caminhos chegam a mais pessoas, integram mais participantes e permanecem seguros, disponíveis e preparados para o que vem a seguir.
É esse o sentido do nosso reposicionamento. E é essa a responsabilidade que assumimos quando afirmamos: EMIS, pelo futuro dos pagamentos.