A revolução que não encheu o bolso: 15 anos depois, os tunisinos lutam contra o custo de vida – Correio da Kianda

A Tunísia vive uma crise do custo de vida que persiste desde 2010, quando a chama da Primavera Árabe foi acesa com o gesto de Mohamed Bouazizi. Embora esse movimento tenha derrubado regimes e gerado expectativas de mudança política e social, muitos tunisianos hoje sentem que a melhoria econômica não aconteceu. Nos últimos 15 anos o país experimentou flutuações políticas e econômicas que se traduziram numa perda significativa do poder de compra da população. Este artigo analisa como a desvalorização do dinar, a dependência de importações, a reforma ou congelamento de subsídios e as políticas econômicas recentes provocaram aumentos expressivos nos preços de alimentos e bens essenciais, e quais são as consequências sociais e práticas para famílias tunisianas. Ao longo do texto, usamos dados comparativos de 2010 e relatos de campo para oferecer uma visão integrada do problema e caminhos de interpretação, com foco em impactos imediatos e implicações de médio prazo para a estabilidade social e econômica do país.

Contexto histórico e legado da Primavera Árabe

A revolta iniciada em dezembro de 2010, impulsionada por desemprego, corrupção e aumento do custo de vida, criou uma expectativa de reformas profundas. Entretanto, o período pós-2011 foi marcado por transições políticas instáveis, oscilações entre processos democráticos e medidas mais autoritárias, e dificuldades para implementar políticas econômicas sustentáveis. Entre 2011 e 2021, muitos observadores definem o período como uma transição democrática trôpega; o que se seguiu, segundo analistas, teve traços populistas e centralizadores. Esse trajeto político afetou a confiança de investidores, a capacidade do Estado de executar reformas estruturais e a eficácia de programas públicos. Como resultado, indicadores econômicos fundamentais — investimento, crescimento do emprego formal e reservas cambiais — não avançaram como necessário para proteger o poder de compra das famílias. O contexto histórico é, portanto, central para entender por que medidas que poderiam mitigar a inflação e estabilizar preços não foram plenamente implementadas ou surtiram efeitos limitados.

Desvalorização do dinar e o impacto sobre as importações

Uma das forças motrizes do aumento de preços tem sido a desvalorização do dinar tunisiano. Em dezembro de 2010, um dólar comprava cerca de 1,47 dinares; atualmente a taxa supera 2,9, o que significa que o dinar perdeu aproximadamente metade de seu valor frente ao dólar. Para um país que importa grande parte dos seus alimentos e insumos industriais, isso eleva automaticamente o custo em moeda local de produtos pagos em dólares ou euros. O efeito direto aparece no preço ao consumidor final: óleo de cozinha, cereais, fertilizantes e ração animal ficam mais caros, pressionando toda a cadeia de produção e distribuição. Além disso, a volatilidade cambial dificulta o planejamento de empresas e torna mais caro o serviço da dívida externa. A conjugação entre câmbio fraco, reservas limitadas e necessidades de financiamento externo cria um ambiente onde a inflação importada se transforma em inflação agregada, corroendo salários reais e poupando apenas bens fortemente subsidiados do aumento imediato, gerando uma cesta de consumo em dois níveis.

A alta dos preços dos alimentos e a cesta em dois níveis

Comparações entre 2010 e 2026 mostram aumentos notáveis: tomates subiram cerca de 113%, frango 118% e óleo de cozinha 129%; algumas hortaliças tiveram altas ainda maiores, como cenoura (+428%) e batata (+268%); a carne bovina quase quadruplicou. Em contrapartida, itens controlados de forma rígida, como o arroz, apresentaram ajustes muito menores. Esse cenário criou uma cesta de consumo dividida: produtos subsidiados mantêm preços relativamente estáveis, enquanto bens fora do programa de compensação dispararam. A política de subsídios, em vigor desde os anos 1970 por meio da Caisse Générale de Compensation, enfrentou reformas propostas para torná-la mais focalizada, especialmente em negociações com o FMI. A implementação dessas reformas foi interrompida, mas a retirada gradual de itens da lista de subsídios ao longo das décadas expôs famílias a aumentos abruptos quando bens essenciais deixam a proteção estatal. Para a população, isso significa escolhas difíceis e mudanças de consumo, com migração para alternativas mais baratas, redução da diversidade nutricional e maior insegurança alimentar entre os mais pobres.

Impactos sociais: transporte, educação e vida cotidiana

Os aumentos de preço repercutem em múltiplos aspectos da vida diária. Relatos de famílias indicam que material escolar subsidiado desapareceu das prateleiras, obrigando pais a buscar alternativas de segunda mão; o custo e a confiabilidade do transporte público se deterioraram, forçando o uso de meios privados mais caros; e itens básicos de higiene e remédios sofreram aumentos constantes. Esses efeitos têm impacto direto sobre a capacidade das famílias de atender necessidades básicas e sobre indicadores sociais como frequência escolar, padrões de consumo e acesso a serviços de saúde. A pressão sobre orçamentos familiares também contribui para o aumento da ansiedade social e para a percepção de perda de dignidade econômica, fatores que podem alimentar descontentamento político. Em suma, a inflação não é apenas um número: ela altera rotinas, escolhas e oportunidades, e acentua desigualdades já preexistentes.

Possíveis caminhos e recomendações

Para mitigar esses efeitos, políticas coordenadas são necessárias. Entre medidas de curto e médio prazo destacam-se: 1) estabilização cambial e aumento das reservas por meio de acordos de financiamento e exportações; 2) implementação de subsídios mais bem dirigidos para proteger os mais vulneráveis sem distorcer incentivos; 3) estímulo ao investimento no setor agrícola para diminuir a dependência de importações; 4) apoio à rede de proteção social que combine transferências diretas com programas de capacitação. Essas ações exigem consenso político, diálogo com parceiros internacionais e transparência na gestão pública. Sem tais medidas, o risco é aprofundar a estagnação econômica e ampliar o custo social da crise.

Os aumentos de preço na Tunísia desde a Primavera Árabe ilustram como choques cambiais, escolhas de política pública e fragilidade institucional se traduzem em perda de bem-estar para a população. A história recente mostra que as expectativas de 2010 não se concretizaram em ganhos distribuídos, e que reformas inacabadas e políticas contraditórias agravaram a situação. Para leitores, pesquisadores e formuladores de política, é crucial acompanhar indicadores de inflação, câmbio e subsídios, e apoiar iniciativas que promovam estabilidade econômica e proteção social. Se você quer receber análises como esta e atualizações sobre economia na região, inscreva-se na nossa newsletter e compartilhe este artigo para ampliar a discussão pública.

Fonte e referência dos dados originais: Al Jazeera

Source link

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *