A recente onda de ataques xenófobos na África do Sul deixou de ser encarada como um problema exclusivamente interno e passou a constituir uma preocupação diplomática e regional. Nigéria, Gana, Moçambique, Malawi, Zimbabwe, Lesoto, Quénia e Zâmbia adoptaram diferentes medidas para proteger os seus cidadãos e responder às crescentes tensões contra imigrantes.
A Nigéria condenou a morte de dois cidadãos nigerianos em junho de 2026 e organizou voos gratuitos de repatriamento para pessoas que se sentiam ameaçadas. Até julho, 1.490 nigerianos tinham sido evacuados da África do Sul. Abuja mantém também contactos diplomáticos e consulares com Pretória, procurando garantir a segurança dos seus cidadãos sem comprometer as relações políticas e económicas entre os dois países. Recentemente, o Ministério dos Negócios Estrangeiros nigeriano acusou o Governo sul-africano de cumplicidade nos ataques xenófobos.
O Gana levou a questão à União Africana, defendendo uma resposta colectiva à xenofobia. Accra aconselhou ainda os seus cidadãos a evitarem viagens não essenciais para a África do Sul e participou nos esforços de assistência aos afectados.
Moçambique está entre os países mais atingidos. O Governo anunciou a morte de nove cidadãos e informou que pelo menos 874 pessoas foram afectadas. Maputo activou mecanismos de emergência, organizou o transporte de cidadãos que pretendiam regressar e preparou condições de acolhimento na fronteira de Ressano Garcia, com planos para repatriar cerca de mil moçambicanos.
Malawi, Zimbabwe, Lesoto, Quénia e Zâmbia adoptaram sobretudo medidas preventivas, diplomáticas e de contingência. Foram emitidos alertas para evitar zonas de violência e manifestações, reforçado o acompanhamento consular e preparados mecanismos para eventual evacuação. O Zimbabwe destacou-se pelos esforços de repatriamento e reintegração, com mais de 100 mil cidadãos alegadamente regressados no contexto da instabilidade. Importa salientar que a Somália, Etiópia, Eritreia integram o grupo de países mais afectados.
A África do Sul rejeita as acusações de que esteja a promover ataques sistemáticos contra cidadãos africanos e defende o direito de aplicar as suas leis migratórias e combater a imigração irregular. Organizações de defesa dos direitos humanos, contudo, alertam que a fiscalização migratória não pode justificar violência, discriminação ou actos de justiça pelas próprias mãos.
A resposta dos países africanos revela a dimensão regional da crise. Para além da protecção imediata dos cidadãos, os governos enfrentam o desafio de conciliar o direito de cada Estado de controlar a imigração com a necessidade de combater a violência e a discriminação contra migrantes.
A evolução da situação poderá ter consequências para as relações diplomáticas, a cooperação regional e os princípios de solidariedade africana e Pan-Africanismo. O reforço da cooperação entre governos, a responsabilização dos autores dos ataques e o diálogo diplomático serão fundamentais para evitar uma escalada das tensões.