O regresso de Joseph Kabila à cena política está a agravar as tensões na República Democrática do Congo (RDC), após o antigo Presidente anunciar a criação de uma nova estrutura político-militar que integra a coligação AFC-M23, envolvida nos confrontos armados no leste do país.
Segundo Mariana António, cidadã angolana residente na RDC, o ambiente político é actualmente marcado pela polarização, por acusações de alta traição e por preocupações relacionadas com a segurança. A cidadã afirma que a reaparição de Kabila tem provocado reacções distintas entre os congoleses, entre indignação, receio e expectativas de mudança política.
A 12 de Outubro, Joseph Kabila anunciou, em Goma, a criação da Frente para a Refundação da Nação (FNRN), uma estrutura que reúne a coligação AFC e o grupo rebelde M23. A iniciativa representa um envolvimento mais directo do antigo Chefe de Estado na oposição armada ao Governo do Presidente Félix Tshisekedi.
Mariana António explica que as autoridades congolesas interpretam a nova estrutura como uma extensão da ameaça representada pela coligação AFC-M23, que controla territórios no leste do país. Neste contexto, a intervenção de membros do Governo tem sido marcada por declarações duras contra o antigo Presidente e pela contestação à sua participação em eventuais iniciativas de diálogo nacional.
A situação foi igualmente analisada pelo especialista em Relações Internacionais Crisóstomo Chipilica, que considera que abandonar o poder não significa necessariamente deixar de enfrentar riscos políticos, sobretudo quando permanecem disputas em torno da influência e da sobrevivência dos antigos governantes.
“Para a sua sobrevivência, nem sequer se sente seguro, nem o próprio Kabila está seguro. Mas há outro actor aqui que entra, que é Jean-Pierre Bemba”, afirmou o analista
Chipilica destaca o papel de Jean-Pierre Bemba, líder do Movimento de Libertação do Congo (MLC) e actual vice-primeiro-ministro e ministro dos Transportes, considerando que o seu percurso político e a relação de longa data com Kabila ajudam a compreender a dimensão do confronto.
Segundo o especialista, a posição de Bemba não pode ser dissociada do histórico de rivalidade entre os dois dirigentes, que disputaram a Presidência nas eleições de 2006. Para Chipilica, a relação entre ambos levanta dúvidas sobre as possibilidades de diálogo e de coexistência política num cenário de crescente instabilidade.
A liderança de Kabila na nova estrutura poderá também complicar os esforços de paz em curso, uma vez que a AFC-M23 mantém negociações com o Governo congolês, mediadas pelo Qatar. A continuidade desses contactos dependerá, entre outros factores, da disposição das partes para respeitar os compromissos assumidos e procurar uma solução política para o conflito.
O agravamento das tensões políticas ocorre num contexto de confrontos armados no leste da RDC e de divergências sobre o futuro da governação do país, colocando novamente em evidência os desafios de segurança e de reconciliação nacional.