O ataque informático que afectou os serviços da Unitel reacendeu o debate sobre a segurança das infra-estruturas críticas de Angola e os riscos associados à dependência de empresas e especialistas estrangeiros na protecção de sistemas estratégicos.
Em declarações à Rádio Correio da Kianda, o jurista David Mendes questionou o modelo de segurança adoptado pela operadora e por outras instituições nacionais, defendendo que a utilização de estruturas externas pode aumentar a vulnerabilidade do país.
“Eu acredito que o sistema de segurança da Unitel não está baseado em Angola”, afirmou o jurista, acrescentando que a preocupação não se limita à operadora de telecomunicações.
Segundo David Mendes, várias empresas nacionais e instituições públicas recorrem a serviços de segurança tecnológica fora do país, o que, na sua visão, representa uma perda de controlo sobre sistemas considerados essenciais.
“As nossas empresas e até instituições, como a Sonangol e outras, colocam o seu sistema de segurança a partir de fora, fora do país. E aí começa a verdadeira insegurança, porque você dá o poder na mão de terceiros”, disse.
O jurista alertou ainda para a possibilidade de conflitos de interesse no sector da cibersegurança, defendendo que os modelos de contratação e fiscalização precisam de ser analisados.
“Há ataques que são propositados para você manter o contrato com a empresa que te protege. A empresa que cuida da tua segurança pode, entre aspas, pedir um ataque para você se sentir vulnerável e então manter o contrato. Temos que pensar nisso”, afirmou.
David Mendes considerou igualmente preocupante a presença prolongada de assessoria estrangeira em sectores estratégicos do Estado.
“Como é que uma empresa como a Sonangol, 50 anos de independência, ainda tem assessores estrangeiros? Como é que um Ministério como o das Finanças, 50 anos, ainda tem assessoria externa? O que é que isso representa para a soberania do Estado?”, questionou.
Para o jurista, a dependência tecnológica externa levanta questões sobre autonomia nacional. “A soberania está na mão dos estrangeiros”, concluiu.
Por sua vez, o cientista político Eurico Gonçalves defendeu que um ataque desta dimensão resulta de uma preparação prolongada e não de uma ocorrência isolada.
“Isto é projectado meticulosamente, porque é preciso encontrar exactamente um espaço de abertura. O erro não começou com os efeitos”, afirmou.
O analista considerou que a actual resposta da Unitel está centrada na recuperação dos serviços, mas defendeu uma investigação mais profunda às causas do incidente.
“Estamos a olhar para os efeitos, a paralisação dos serviços e a retoma gradual. O sistema está num gradualismo para repor os serviços, mas até agora não temos prova de que poderia ser resolvido hoje, amanhã ou na próxima semana”, disse.
Eurico Gonçalves entende que o caso deve ser tratado como uma questão de segurança nacional, por envolver uma das maiores redes de comunicação do país.
“A situação é estrutural, não é conjuntural. É a razão pela qual aqui tem que se envolver a segurança nacional. O consumidor precisa de dados e voz em simultâneo”, afirmou.
A Unitel continua a trabalhar na reposição integral dos serviços afectados pelo ataque informático, mas ainda não apresentou um prazo definitivo para o regresso à normalidade.