Num momento em que o sistema internacional enfrenta novos focos de tensão, conflitos armados e uma crescente fragmentação das relações entre Estados, Angola acolhe a terceira edição da iniciativa “Apelo à Paz, ao Fim das Guerras e ao Respeito pelo Direito Internacional”, promovida pela Aliança das Civilizações das Nações Unidas. O evento representa muito mais do que um compromisso diplomático. Constitui o reconhecimento da crescente relevância de Angola como actor credível na promoção da paz, do diálogo e da cooperação internacional.
A iniciativa surge num período em que a paz deixou de ser apenas uma aspiração moral para assumir um valor estratégico na preservação da estabilidade global. As guerras começam muito antes dos confrontos militares. Nascem da intolerância, da erosão da confiança, da desinformação e da incapacidade de reconhecer a dignidade humana como fundamento da convivência entre povos.
É precisamente por esta razão que a construção da paz exige uma abordagem inteligente, capaz de actuar sobre as causas profundas da instabilidade. A psicologia da paz demonstra que sociedades resilientes desenvolvem confiança colectiva, fortalecem a reconciliação e criam mecanismos institucionais que transformam divergências em diálogo. A paz duradoura não resulta apenas do silêncio das armas, mas da existência de instituições eficazes, de uma justiça credível e de cidadãos comprometidos com a convivência democrática.
Angola conhece esta realidade por experiência própria. Os seus vinte e quatro anos de paz efectiva traduzem uma aprendizagem nacional construída através da reconciliação, da reconstrução institucional e da valorização da unidade nacional. Este percurso confere ao país uma autoridade política e moral para participar activamente nos debates internacionais sobre mediação, segurança cooperativa e prevenção de conflitos.
Num mundo marcado pela polarização, Angola afirma-se como uma plataforma de aproximação entre diferentes perspectivas políticas e culturais. Esta vocação diplomática fortalece a sua política externa e consolida a imagem de um Estado comprometido com soluções pacíficas, com o multilateralismo e com a estabilidade regional e internacional. A paz angolana transforma-se, assim, num activo estratégico ao serviço da cooperação entre os povos.
Ao colocar o respeito pelo Direito Internacional no centro da iniciativa, as Nações Unidas recordam que a paz necessita de regras, instituições credíveis e compromissos assumidos com responsabilidade. Sempre que o Direito Internacional perde força, aumenta a incerteza e amplia-se o risco da violência. Defender o direito significa proteger vidas, preservar a soberania dos Estados e criar condições para que o diálogo prevaleça sobre o conflito.
Esta visão converge plenamente com o Objectivo de Desenvolvimento Sustentável 16 da Agenda 2030, que promove sociedades pacíficas, acesso à justiça e instituições eficazes. Não existe desenvolvimento sustentável sem paz, nem estabilidade duradoura sem confiança nas instituições públicas. A prevenção inteligente dos conflitos começa precisamente no fortalecimento da governação, da justiça e da cooperação entre os povos.
Ao mesmo tempo, a paz exige uma transformação cultural. As sociedades mais estáveis não eliminam as diferenças; aprendem a administrá-las através da participação, do respeito e da responsabilidade colectiva. A verdadeira segurança nasce quando a cooperação substitui a lógica da hostilidade e quando a consciência colectiva reconhece que o futuro comum depende da capacidade de construir pontes em vez de aprofundar divisões.
Num contexto internacional caracterizado pela aceleração das crises, pela fragmentação social e pelo enfraquecimento do diálogo, torna-se igualmente necessário recuperar uma cultura de escuta, confiança e reconhecimento mútuo. A paz consolida-se quando as instituições inspiram credibilidade e quando as relações humanas deixam de ser orientadas pelo medo para serem sustentadas pela responsabilidade partilhada. É nesta convergência entre consciência, instituições e cooperação que se constrói uma paz de qualidade, inteligente e duradoura.
Ao acolher esta importante iniciativa internacional, Angola reafirma a sua identidade como nação comprometida com a paz, o diálogo e o respeito pelo Direito Internacional. A experiência nacional demonstra que é possível transformar o sofrimento em reconciliação, a memória em responsabilidade e a estabilidade numa contribuição efectiva para a paz mundial. É esta visão estratégica que reforça o papel de Angola na construção de uma ordem internacional mais cooperativa, mais justa e mais humana.