Entre os observadores do panorama político cabindense, uma constatação regressa com a regularidade de uma fatalidade que denota que a juventude tem dificuldade em encontrar o seu lugar. Muitas vezes acusada pelos mais velhos de arrogância, precipitação ou de uma ambição desmedida e desligada das realidades históricas, colide com um muro de desconfiança e em contrapartida, esta mesma juventude lamenta o imobilismo e o bloqueio de um espaço político que tarda em renovar-se.
Por Osvaldo Franque Buela (*)
Após analisar a situação, posso, assim, afirmar que reduzir este bloqueio a uma simples disputa de egos ou a um choque geracional seria um erro de análise, por que a realidade do terreno revela um mal mais profundo e eminentemente estrutural que se trata de uma falta gritante de organização e de meios.
É fácil censurar a juventude pela sua falta de sabedoria ou pelos seus impulsos apaixonados, mas de que sabedoria falamos quando escasseiam os espaços de transmissão, de confiança, formação e aprendizagem política?
A ambição de uma juventude não é um defeito em si, é o motor natural de qualquer sociedade que se recusa a morrer. Por outro lado, abandonada a si mesma, sem orientação nem recursos, esta ambição transforma-se em frustração e expressa-se, por vezes, sob formas desordenadas que os mais velhos interpretam como presunção.
Para se tornar uma força de proposta credível, a juventude não pode contentar-se com encantações ou atitudes nas redes sociais. A legitimidade política não se exige, constrói-se pacientemente no terreno caso contrário, acaba por se tornar…uma ilusão da ambição sem estrutura
Se analisarmos a situação numa perspetiva mais abrangente, compreenderemos que três pilares indissociáveis devem estruturar o despertar da juventude cabindense que podemos categorizar por associativismo, Debate e Engajamento
A ação associativa deve ser entendido como evidência, um marcador como prova de humildade, pois é no terreno comunitário, em contacto direto com as preocupações diárias da população (educação, cultura, solidariedade), que se forja o sentido de serviço. Neste sentido, a ação associativa é o teste do real, pois ela tranquiliza os mais velhos quanto à capacidade dos jovens de gerir o concreto antes de pretenderem guiar o destino colectivo.
Quanto ao debate de ideias, ela deve ser entendida como prova de maturidade, por que contradizer ou querer ir além do discurso dos antecessores exige uma rigorosidade intelectual impecável. Dominar a história do território, o direito internacional, os desafios geopolíticos e económicos regionais é a única forma de elevar o nível do debate e transformar o confronto verbal num diálogo de igual para igual.
Enfim, o engajamento político deve ser entendida como culminação, fortalecido por um enraizamento social e por uma visão fundamentada, o jovem líder já não surge como um aventureiro apressado, mas sim como um quadro preparado, capaz de assumir responsabilidades com gravidade e discernimento.
Com base em todos estes fundamentos que apresentei, resta apenas uma coisa, e é crucial do meu ponto de vista: estruturar e financiar o futuro.
É necessário encarar os factos por que sem estruturas sólidas nem meios materiais e financeiros, este percurso ideal permanece uma ilusão.
Hoje, as iniciativas da juventude cabindense sofrem de uma atomização crónica, as associações estão dispersas, os círculos de reflexão carecem de verdadeiras ferramentas de difusão e os jovens engajados trabalham, frequentemente, numa situação de total precariedade material.
Resolver o problema do papel da juventude em Cabinda exige, portanto, uma dupla tomada de consciência:
Por parte dos mais velhos, é tempo de investir massivamente na transmissão, e do meu ponto de vista, transmitir não significa ceder cegamente aquilo que pretendemos possuir como poder e experiência, mas sim criar escolas de quadros, financiar incubadoras de iniciativas cidadãs e oferecer um acompanhamento político benévolo.
Por parte da juventude, convém canalizar a energia no método. A urgência já não é a reivindicação de «cargos», mas sim a organização rigorosa, a criação de redes sólidas e a busca por autonomia financeira para sustentar projetos independentes e duradouros.
Em conclusão, a juventude cabindense não encontrará o seu lugar através da provocação ou do confronto, mas sim através da prova constante da sua competência e organização.
Ao estruturar a sua ação e ao dotar-se dos meios para as suas ambições, saberá honrar o percurso dos antigos, encarnando simultaneamente o futuro digno e esclarecido que o povo cabindense espera.
Este foi apenas um conselho de rotina, com o mesmo prazer que sempre sinto ao dirigir-me a vós, queridos jovens.