RDC: Joseph Kabila e a disputa pelo poder no leste congolês – Correio da Kianda

A crise na República Democrática do Congo (RDC) entra numa nova fase, marcada pela aproximação entre a ambição política de Joseph Kabila, o avanço territorial do Movimento 23 de Março (M23) e a importância estratégica dos recursos minerais do leste do país. O que está em causa já não é apenas uma disputa pela segurança regional. É também uma luta pelo controlo do território, das fontes de riqueza e, potencialmente, do próprio Estado congolês.

A 12 de Outubro de 2026, Joseph Kabila anunciou, em Goma, a criação da Frente para a Refundação da Nação (FRN), uma plataforma político-militar que integra o M23 e outros actores da oposição ao Governo de Félix Tshisekedi. A iniciativa representa uma mudança significativa: o antigo Presidente assume uma posição mais directa na confrontação com o poder estabelecido em Kinshasa.

Importa, por isso, colocar uma questão fundamental: Kabila pretende apenas influenciar a reorganização política da RDC ou procura criar condições para regressar à Presidência? Embora não seja possível afirmar que esse seja o seu objectivo formalmente declarado, a sua entrada directa numa coligação político-militar torna legítimo analisar essa possibilidade.

O problema é que Tshisekedi dificilmente aceitará, sem forte resistência, uma configuração política que possa comprometer a sua autoridade. Se Kabila considerar inviável um entendimento que lhe permita recuperar espaço político, poderá apostar numa estratégia de alteração da correlação de forças, utilizando a influência territorial e as alianças construídas no leste como instrumentos de pressão sobre Kinshasa.

Goma e Kinshasa: uma divisão funcional do poder?

A hipótese de Goma se transformar num centro de poder económico e estratégico, enquanto Kinshasa conserva a centralidade política e institucional, merece atenção. Contudo, não existem elementos suficientes para afirmar que a RDC terá formalmente duas capitais. Trata-se, antes, de uma hipótese de fragmentação funcional do poder, na qual diferentes actores exercem autoridade sobre partes distintas do território e da economia.

O controlo de Goma e de áreas vizinhas permite influenciar circuitos comerciais, fronteiras e actividades mineiras. A exploração do coltan em Rubaya ilustra esta realidade. Relatórios de peritos das Nações Unidas documentaram o controlo exercido pela coligação AFC/M23 sobre minas, centros comerciais e rotas de transporte de minerais para o Ruanda, incluindo mecanismos de tributação e redes de contrabando.

É neste ponto que a dimensão económica ganha centralidade. Quem controla a extracção, o transporte e a comercialização dos recursos pode obter receitas, financiar estruturas de poder e adquirir capacidade de pressão política. Todavia, controlar uma mina não equivale a controlar toda a cadeia internacional de valor, que inclui compradores, intermediários, empresas transformadoras e mercados consumidores.

Também seria um erro reduzir o conflito a uma disputa pessoal entre Kabila e Tshisekedi. A dimensão regional, particularmente o papel atribuído ao Ruanda no apoio ao M23, os interesses de segurança fronteiriça e a procura internacional de minerais estratégicos tornam a crise muito mais complexa. Kigali contesta as acusações de envolvimento que lhe são dirigidas, enquanto relatórios internacionais apontam para uma ligação entre o controlo territorial e os benefícios económicos associados aos recursos minerais.

O risco de uma soberania fragmentada

A principal ameaça para a RDC é a consolidação de estruturas paralelas de autoridade. Quando um movimento armado controla território, administra actividades económicas, cobra receitas e estabelece relações comerciais, a soberania formal do Estado pode continuar intacta no plano jurídico, mas ficar severamente limitada na prática.

Nesse cenário, a força territorial converte-se em instrumento de negociação, mesmo quando não existe disposição para negociar directamente. A ausência de um entendimento entre Kabila e Tshisekedi poderá, assim, aprofundar a disputa pela legitimidade política e prolongar a instabilidade no leste congolês.

Entretanto, uma eventual recuperação da Presidência por Kabila não decorre automaticamente do seu protagonismo actual. A capacidade de desafiar o Governo, a possibilidade de conquistar legitimidade nacional e a aptidão para reconstruir a unidade territorial são questões distintas.

Para Angola e para os restantes países da região, esta evolução exige atenção diplomática. A instabilidade na RDC afecta a segurança dos Grandes Lagos, as relações entre Estados vizinhos e as perspectivas de integração económica regional. Uma solução duradoura terá de enfrentar não apenas as rivalidades políticas, mas também as redes económicas que beneficiam da insegurança.

No fim, a questão decisiva não é simplesmente quem controla Goma ou Kinshasa. É saber quem consegue transformar controlo territorial em autoridade política legítima, sem comprometer a unidade do Estado congolês. Porque, quando os recursos minerais se tornam instrumentos de disputa pelo poder, a paz deixa de depender exclusivamente dos acordos diplomáticos e passa também pela capacidade de desmontar os incentivos económicos que alimentam o conflito.

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