O silêncio de algumas famílias perante casos de abuso sexual contra crianças está a preocupar as autoridades no Uíge, que defendem o reforço do diálogo sobre educação sexual e a denúncia dos casos às autoridades competentes.
A preocupação surge depois de a Maternidade Municipal do Uíge ter registado 64 casos de violação sexual entre Janeiro e Agosto deste ano, segundo a directora clínica da unidade, Dialundama Sebastião Beirão, médica ginecologista e obstetra.
De acordo com a responsável, os casos registados envolvem, com maior incidência, crianças e adolescentes dos 2 aos 18 anos. Em algumas situações, as famílias relatam que as vítimas terão sido abusadas por pessoas próximas, incluindo vizinhos e familiares.
A directora clínica lamenta que algumas famílias optem por tentar resolver os casos internamente, sem recorrer à Polícia Nacional.
Face a esta realidade, a Maternidade Municipal do Uíge passou a notificar a Polícia sempre que identifica um caso de possível abuso sexual, independentemente de a família apresentar ou não uma queixa formal.
Por sua vez, a psicóloga clínica Domingas Joaquim considera que a falta de diálogo aberto sobre educação sexual dentro das famílias contribui para que muitas crianças não reconheçam situações de abuso ou permaneçam em silêncio.
A especialista alerta que crianças vítimas de abuso podem carregar consequências psicológicas para a vida adulta e defende que os pais e encarregados de educação devem criar um ambiente de confiança que permita às crianças falar sobre situações que as deixam desconfortáveis ou que atentem contra a sua integridade.
As autoridades e especialistas apelam, por isso, às famílias para que não silenciem nem tentem resolver internamente casos de abuso sexual, devendo comunicar as situações às autoridades competentes para garantir a protecção das vítimas e a responsabilização dos presumíveis autores.