Dia Humanitário 2026: A Protecção das Mulheres e Raparigas Não É Uma Opção. É Um Dever

Ao longo da minha carreira nas Nações Unidas, tive a oportunidade de visitar comunidades em diferentes países e contextos. Há um padrão que se repete nessas comunidades: perante fenómenos como cheias, secas ou conflitos, mulheres e raparigas podem enfrentar impactos significativos, sobretudo quando o acesso a serviços essenciais é limitado.

Por Rinko Kinoshita, representante do UNFPA

Neste Dia Mundial Humanitário, gostaria de destacar a importância de assegurar que as necessidades específicas das mulheres e raparigas sejam consideradas desde o início das respostas às situações de emergências. Isto inclui garantir a continuidade dos serviços de Saúde Sexual e Reprodutiva e a prevenção e resposta à Violência Baseada no Género.

Recordo-me de uma visita que fiz ao Namibe no ano passado, à uma pequena comunidade rural onde os efeitos da seca eram claramente visíveis. Um rio que, em outros períodos, transportava água suficiente para transbordar as suas margens encontrava-se reduzido a um leito de areia. Vi mulheres a cavar pequenos buracos no leito do rio à procura de água para as necessidades das suas famílias. Esta água era a única fonte disponível para beber, cozinhar, lavar a roupa e para ser utilizada aos momentos de partos.

A situação recordou-me como as alterações climáticas e os fenómenos meteorológicos extremos podem afectar a vida quotidiana das comunidades.

Por exemplo, elas aumentam a pressão sobre as mulheres e raparigas, incluindo mulheres grávidas, para as quais a continuidade do acesso aos serviços de saúde sexual e reprodutiva é particularmente importante.

Em maio, quando visitei Benguela após as cheias, tive igualmente a oportunidade de estar num dos locais de acolhimento temporário das populações afectadas. Entre as famílias encontravam-se mulheres grávidas que necessitavam de acompanhamento pré-natal e de serviços de saúde materna.

O UNFPA tem apoiado o governo da província de Benguela, em particular as estruturas de saúde, contribuindo para o reforço das capacidades dos profissionais de saúde em cuidados obstétricos e neonatais de emergência e na prevenção da hemorragia pós-parto.

Situações de emergências provocadas por fenómenos climáticos extremos ou por conflitos não afectam apenas os serviços essenciais e os meios de subsistência, mas também aumentam as vulnerabilidades e os riscos de violência baseada no género, particularmente entre adolescentes e

Um estudo recentemente publicado pelo UNFPA a nível regional1 analisou dados de mais de 20 mil adolescentes e jovens, com idades entre os 13-24 anos, no Zimbabwe, Moçambique e Lesoto, países afectados por períodos de seca. O estudo identificou uma associação entre uma maior exposição à seca e o aumento do risco de diferentes formas de violência. Por exemplo, para as mulheres que não vivem numa união estável, a maior exposição à seca esteve associada a uma probabilidade 46% maior de violência sexual, 73% maior de violência emocional, e 41% maior de violência física. As raparigas e jovens mulheres entre os 18-24 anos residentes em zonas rurais encontravam-se entre os grupos particularmente vulneráveis.

Em Benguela, na sequência das cheias, o UNFPA juntou-se aos esforços do Governo Provincial na resposta às necessidades das populações afectadas. Em coordenação com o Gabinete da Acção Social, Família e Igualdade de Género (GASFIG) e outros parceiros, o UNFPA contribuiu para a criação de espaços seguros e amigos dos adolescentes e jovens nos locais de acolhimento temporário.

Nestes espaços, adolescentes e jovens tiveram acesso à informação sobre higiene menstrual, prevenção do VIH e de outras infecções sexualmente transmissíveis, e a prevenção da gravidez na adolescência e da violência baseada no género, incluindo os serviços disponíveis e formas de fortalecer a sua resiliência emocional.

Como resumiu uma das jovens que participou nestas actividades: “Ninguém esperava passar por isso. Mas estamos a aprender a lidar com esta situação, construindo a nossa resiliência comunitária.”

Neste Dia Mundial Humanitário, a minha mensagem é simples: perante uma emergência, assegurar que as necessidades das mulheres e raparigas sejam vistas, ouvidas, e atendidas desde o início contribui para uma resposta mais inclusiva e eficaz.

Rinko Kinoshita é Representante do UNFPA em Angola desde Agosto de 2024. Tem mais de 20 anos de experiência em desenvolvimento internacional, com ênfase na saúde materno-infantil, direitos da criança e do adolescente, planeamento, monitorização e avaliação e investigação operacional. Nos últimos anos, ocupou diferentes cargos de gestão na América Central,  América do Sul e em África, com UNICEF e UNFPA. Antes da sua chegada em Angola, foi a Representante do UNFPA na Bolívia durante 4 anos.

Source link

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *