Junta militar do Burkina Faso obriga jornalistas a vestir farda e pegar em armas – Correio da Kianda

A junta militar que governa o Burkina Faso obrigou 44 jornalistas, homens e mulheres, a participar numa formação de seis dias com características militares, apresentada pelas autoridades como uma iniciativa de “imersão patriótica”.

A formação foi realizada numa academia de polícia nos arredores de Ouagadougou e incluiu actividades de disciplina e preparação de carácter militar. Imagens divulgadas pela televisão pública RTB mostram jornalistas vestidos com uniformes militares e segurando rifles.

Durante a cerimónia, o ministro da Comunicação e porta-voz do Governo, Pingdwende Gilbert Ouedraogo, perguntou aos participantes se seriam “jornalistas patriotas e profissionais”. Os jornalistas responderam em uníssono, em posição de sentido.

O ministro afirmou ainda que um jornalista profissional que não seja patriota constitui uma ameaça para o país.

A iniciativa faz parte do programa anual de “imersão patriótica”, que as autoridades militares têm aplicado a diferentes sectores da sociedade. Em 2026, o programa foi preparado com 440 formadores e inclui conteúdos sobre disciplina, valores militares, civismo, patriotismo e “espírito revolucionário”.

O Governo justifica estas iniciativas com a necessidade de reforçar a disciplina, o patriotismo e o compromisso com o país, num contexto de grave crise de segurança provocada por ataques de grupos jihadistas ligados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico.

A medida, contudo, está a provocar preocupação entre organizações de defesa da liberdade de imprensa. Sadibou Marong, director do escritório da África Subsaariana da organização Repórteres Sem Fronteiras, considera a formação um sinal preocupante para a liberdade de imprensa.

Segundo o responsável, jornalistas não devem ser transformados em soldados ou em porta-vozes do esforço de guerra.

A preocupação aumenta devido ao contexto político e mediático do país. Desde a chegada ao poder de Ibrahim Traoré, através de um golpe de Estado em 2022, vários órgãos de comunicação social foram suspensos e organizações de direitos humanos denunciam o recrutamento forçado de jornalistas críticos da junta para zonas de combate.

A formação dos jornalistas ocorre, assim, num ambiente de forte pressão sobre os meios de comunicação social e de mobilização da população para o esforço nacional de combate à insurgência.

O Burkina Faso tem sido, há mais de uma década, um dos países mais afectados pela violência de grupos jihadistas na região do Sahel. As autoridades de Ouagadougou defendem que a mobilização patriótica é necessária para recuperar a soberania e enfrentar a ameaça armada.

A iniciativa levanta, entretanto, questões sobre os limites entre o patriotismo, a mobilização nacional e a independência profissional dos jornalistas, sobretudo quando a formação envolve fardas militares, armas e mensagens de alinhamento com o esforço de guerra.

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