Debaixo da pedonal, o risco que continua a matar em Luanda – Correio da Kianda

Peões ignoram passagens aéreas, atravessam entre veículos em movimento e aumentam o risco de atropelamentos na capital

Todos os dias, centenas de peões atravessam as principais artérias de Luanda por baixo de passagens aéreas construídas para garantir maior segurança na circulação pedonal. Homens, mulheres, idosos e crianças optam frequentemente por ignorar as pedonais e cruzar as estradas entre veículos em movimento, apesar do risco de atropelamento.

A prática é visível em diferentes pontos da capital e ocorre mesmo quando as estruturas de travessia estão a poucos metros dos peões. Para muitos cidadãos, a escolha está relacionada com a necessidade de poupar tempo e evitar o esforço de subir e descer as escadas das passagens aéreas.

A Rádio Correio da Kianda foi às ruas de Luanda ouvir peões, automobilistas e especialistas para perceber as razões que levam os cidadãos a assumir diariamente este risco. Entre os entrevistados, muitos reconhecem que a travessia fora dos locais apropriados é perigosa, mas admitem continuar a fazê-lo.

Travessias que deixam marcas

Ana Maria é uma das pessoas que conhece as consequências dessa escolha. Depois de atravessar uma estrada por baixo de uma pedonal, foi atropelada e ficou com sequelas permanentes.

“Foi uma decisão que parecia simples, mas acabou por mudar a minha vida. Hoje tenho sequelas que vou carregar para sempre”, contou.

Alfredo Francisco reconhece que atravessar fora dos locais apropriados representa um perigo, mas admite que nem sempre utiliza a pedonal.

“Sabemos que é perigoso, mas às vezes estamos com pressa e preferimos atravessar por baixo. A pedonal está ali, mas subir e descer leva tempo”, afirmou.

Maria de Oliveira partilha da mesma percepção.

“É perigoso atravessar assim, sabemos disso, mas muitas vezes fazemos porque é mais rápido e porque queremos chegar logo ao outro lado”, disse.

Já Adriano Frango, conhecido por Didi, afirma ter mudado de atitude depois de testemunhar o atropelamento mortal de um amigo.

“Depois de ver o meu amigo ser atropelado e morrer, percebi que não vale a pena arriscar. Hoje prefiro usar a pedonal, mesmo que tenha de andar mais ou perder alguns minutos”, afirmou.

Motoristas apontam zonas críticas

Os automobilistas também enfrentam diariamente situações de risco provocadas por travessias inesperadas. Benfica, Vila da Gamek e Golfo II são apontados por alguns condutores como zonas particularmente problemáticas.

“Às vezes o peão aparece de repente no meio da estrada. Quando o vemos, já estamos muito próximos e temos pouco tempo para travar”, relatou um dos automobilistas ouvidos pela Rádio Correio da Kianda.

Outro condutor considera que a situação exige maior responsabilidade dos dois lados.

“O motorista deve estar atento, mas o peão também precisa de perceber que não pode atravessar em qualquer lugar. Uma distracção de segundos pode provocar um acidente”, afirmou.

Psicólogo aponta excesso de confiança

Para o psicólogo Fernando Kawendimba, o comportamento dos peões resulta da combinação de negligência, excesso de confiança e distracção.

“As pessoas muitas vezes acreditam que conseguem calcular a velocidade do veículo e atravessar antes de o carro chegar. O problema é que essa percepção nem sempre corresponde à realidade e leva à subestimação do perigo”, explicou.

Segundo o especialista, a sensação de que o risco pode ser controlado contribui para que muitos cidadãos repitam o comportamento, mesmo depois de presenciarem ou conhecerem casos de atropelamento.

Sociólogo defende educação rodoviária

O sociólogo Agostinho Paulo entende que o problema também está relacionado com défices de educação cívica e de literacia rodoviária.

“Não basta construir pedonais. É preciso ensinar as pessoas a utilizá-las e criar uma cultura de segurança rodoviária. Essa educação deve começar desde a infância e ser reforçada através de campanhas permanentes”, defendeu.

Agostinho Paulo considera ainda que deve existir maior responsabilização dos cidadãos, para que a utilização das passagens aéreas deixe de ser vista como uma opção e passe a integrar os hábitos de segurança dos peões.

Luanda lidera sinistralidade

Os dados disponíveis ajudam a dimensionar o problema. Luanda continua entre as províncias com maior número de acidentes de viação e vítimas, sendo os atropelamentos uma das principais causas de morte nas estradas angolanas.

Segundo dados da Polícia Nacional e da Direcção Nacional de Viação e Trânsito (DNVT), a província registou, no mais recente balanço trimestral de 2026, mais de 500 acidentes de viação, que provocaram 180 mortos e 634 feridos.

Em balanços anteriores, Luanda já havia registado 317 vítimas mortais apenas no primeiro semestre, mantendo-se no topo das estatísticas nacionais de sinistralidade rodoviária.

Por detrás de cada número existe um rosto, uma família e uma história interrompida. O caso de Ana Maria, que ficou com sequelas permanentes depois de ser atropelada, e a experiência de Adriano Frango, que perdeu um amigo num atropelamento, ilustram as consequências que podem resultar de uma travessia aparentemente inofensiva.

As pedonais foram construídas para separar peões e veículos e reduzir o risco de atropelamentos. Contudo, enquanto continuarem a ser ignoradas, atravessar por baixo delas continuará a representar uma aposta perigosa, num cenário em que poucos segundos podem determinar entre chegar ao outro lado da estrada ou engrossar as estatísticas da sinistralidade rodoviária.

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